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Pretérito Imperfeito x Pretérito Perfeito — a voz da narrativa
Nos dois trechos abaixo, Clarice Lispector alterna dois tempos verbais com uma função bem clara. O imperfeito descreve estados, características e hábitos — o "pano de fundo" da história, aquilo que se repete ou simplesmente é. O perfeito marca ações pontuais e decisivas — o que aconteceu uma vez e mudou o rumo das coisas.
| Uso | Exemplo |
|---|---|
| Imperfeito — descreve um traço, um estado, um hábito | "Não sabia para quê, não se indagava." (traço psicológico de Macabéa) |
| Imperfeito — repetição, rotina | "De dia usava saia e blusa, de noite dormia de combinação." |
| Perfeito — marca um evento único e decisivo | "Em 1943, Clarice publicou seu primeiro romance." (marco biográfico) |
| Perfeito — muda o rumo da história | "Um incêndio queimou gravemente a mão da escritora, em 1966." |
Texto âncora · Clarice Lispector
Trecho 1 — a abertura do livro:
"Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o quê, mas sei que o universo jamais começou. [...] Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever."
Trecho 2 — o narrador descreve Macabéa, a protagonista:
"Ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio. [...] Não tinha aquela coisa delicada que se chama encanto. Só eu a vejo encantadora. Só eu, seu autor, a amo. Sofro por ela. Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não sabia para quê, não se indagava. Quem sabe, achava que havia uma gloriazinha em viver. Ela pensava que a pessoa é obrigada a ser feliz. Então era."
Fonte: Clarice Lispector, A Hora da Estrela (Rio de Janeiro: José Olympio, 1977). Trechos citados apenas para fins didáticos.
Vocabulário
| molécula | menor partícula de uma substância que ainda conserva suas propriedades (molecule) |
| indagar-se | questionar-se, fazer perguntas a si mesmo |
| gloriazinha | diminutivo irônico de "glória" — uma pequena, quase insignificante, sensação de realização |
| encardida | suja, com aparência amarelada ou acinzentada por falta de limpeza |
| panos (no rosto) | manchas escuras na pele, regionalismo nordestino |
| raquítica | mal desenvolvida fisicamente, fraca — geralmente por desnutrição |
| cascudo | pancada leve na cabeça, dada com os nós dos dedos |
| combinação | peça de roupa íntima feminina, usada como camisola (slip) |
Contexto cultural
Clarice Lispector nasceu em 1920 na Ucrânia, numa família judia que fugiu da violência dos pogroms na região; ainda bebê, veio para o Brasil com os pais e cresceu em Maceió e depois em Recife. Formou-se em Direito no Rio de Janeiro — uma das poucas mulheres da turma — e publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, aos 23 anos, causando sensação imediata pela originalidade da linguagem. Casou-se com um diplomata e viveu quinze anos no exterior (Nápoles, Berna, Washington), até voltar definitivamente ao Brasil em 1959.
Em 1966, um incêndio acidental em seu apartamento queimou gravemente sua mão direita, deixando sequelas permanentes — mesmo assim, continuou escrevendo. A Hora da Estrela, publicado em outubro de 1977, foi seu último romance lançado em vida; a autora morreu dois meses depois, em dezembro do mesmo ano, vítima de câncer. Clarice é hoje considerada uma das vozes mais importantes da literatura brasileira do século XX: rompeu com a tradição regionalista e social que dominava a prosa nacional até então, trazendo uma escrita introspectiva, filosófica e sintaticamente ousada — muitas vezes "quebrando" regras gramaticais tradicionais em nome de um efeito poético. Sua obra influenciou gerações de escritores no Brasil e, mais recentemente, ganhou enorme reconhecimento internacional, com novas traduções para o inglês e outras línguas.
Part 1 — Compreensão
Verdadeiro ou Falso?
Com base no texto e no contexto cultural, escolha V (Verdadeiro) ou F (Falso).
Part 2 — Prática Controlada
Exercise 1 — Imperfeito ou Perfeito?
Complete cada frase com o verbo entre parênteses no tempo correto: pretérito imperfeito (traço, hábito, descrição) ou pretérito perfeito (evento único, decisivo). Os três primeiros itens vêm do texto de Macabéa; os três últimos, da vida de Clarice.
Exercise 2 — Combine com "assim como"
Combine cada par de frases usando "assim como" para criar uma comparação, no estilo de Clarice Lispector. Não existe uma única resposta certa — o importante é usar a estrutura corretamente (comparação real, com indicativo, não subjuntivo).
1. O escritor às vezes esconde os próprios sentimentos atrás dos personagens. Um ator esconde o rosto atrás de uma máscara.
2. Macabéa aceitava a vida sem questionar nada. Uma planta aceita a chuva sem questionar nada.
3. Clarice escrevia sobre temas universais usando uma linguagem só dela. Um pintor retrata o mundo usando cores só dele.
Part 3 — Reflexão
Para pensar e discutir
Responda com 4–6 frases em português. Não existe resposta certa ou errada — o objetivo é praticar a expressão de opinião sobre literatura.
1. Por que você acha que Clarice Lispector escolheu comparar Macabéa a um cachorro que não sabe que é cachorro? O que essa comparação revela sobre a personagem?
2. Você já leu algum livro, em qualquer língua, que mudou a forma como você via o mundo — como A Hora da Estrela é, para muitos leitores? Conte um pouco sobre essa experiência.
3. Clarice Lispector é conhecida por "quebrar" regras tradicionais de sintaxe e pontuação para criar um efeito poético. Você acha que um escritor pode — ou deve — quebrar as regras da língua em nome da arte? Por quê?
