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Marcadores Discursivos

Cinco categorias, dez marcadores avançados — nota gramatical, ensaio autêntico com marcadores em contexto e exercícios de análise e produção.
ademais todavia melhor dizendo eis por que razão pela qual
Nota Gramatical

O que são marcadores discursivos?

Marcadores discursivos são elementos linguísticos — palavras, locuções ou expressões — que organizam o fluxo do texto e sinalizam as relações lógicas entre as ideias. No nível C2, o domínio dos marcadores discursivos não se reduz ao uso correto de cada um — exige sensibilidade para o registro, para o ritmo e para o efeito argumentativo que cada escolha produz.

Marcadores avançados por categoria
1. Adição e progressão
ademais O argumento é frágil. Ademais, os dados não o sustentam.
não apenas… mas também O silêncio não apenas protege, mas também apaga.
2. Contraste e concessão
todavia A memória resiste. Todavia, nem sempre encontra palavras.
não obstante Não obstante as reformas, o problema permanece estrutural.
ainda que + subj. Ainda que sejam verdadeiras, essas narrativas omitem muito.
3. Explicação e reformulação
melhor dizendo É uma herança — melhor dizendo, um sedimento que precede a escolha.
vale dizer A identidade é construída, vale dizer, não se nasce com ela pronta.
a saber Há três fatores em jogo, a saber: memória, linguagem e pertencimento.
4. Exemplificação
basta lembrar que Basta lembrar que os arquivos públicos ainda guardam lacunas deliberadas.
a título de exemplo A título de exemplo, podemos citar o apagamento dos registros do período colonial.
5. Causa e consequência
por conseguinte A narrativa oficial encobre a memória. Por conseguinte, o esquecimento torna-se um esforço constante.
razão pela qual Os arquivos foram destruídos, razão pela qual esse capítulo permanece obscuro.
eis por que A memória não desaparece — ela se encobre. Eis por que o silêncio pesa tanto.
⚡ Marcadores e registro — uma questão de estilo
A situação é grave. Além disso, não há perspectiva de melhora no curto prazo.
vs.
A situação é grave. Ademais, nenhuma perspectiva de melhora se avizinha.

As duas frases dizem o mesmo. Mas a segunda pertence a um registro mais formal e elaborado — e esse efeito não vem do conteúdo, mas da escolha do marcador. No C2, a escolha entre marcadores da mesma categoria é uma decisão estilística, não gramatical.

Leitura
Texto elaborado para fins didáticos | Estilo: ensaio literário | Tema: pertencimento, memória e identidade cultural
O que se herda sem saber
por Tomás Carvalho — publicado na revista Seiva, fevereiro de 2025

Há uma forma de pertencimento que não se escolhe. Ela precede a consciência, ou seja, existe antes que o sujeito tenha palavras para nomeá-la. A língua que se aprende antes de aprender que se está aprendendo; o sotaque que se carrega sem nunca tê-lo adotado; o ritmo com que se organiza o tempo — tudo isso compõe uma herança que não vem em testamento.

No entanto, chamar isso de identidade seria simplificar demais. Identidade pressupõe algum grau de escolha, de afirmação, de narração de si. O que estou descrevendo é anterior a isso: é substrato, é sedimento. Melhor dizendo, é o chão sobre o qual a identidade se constrói — e que, não obstante as reformulações que a vida impõe, permanece reconhecível.

A memória coletiva funciona de forma semelhante. Basta considerar comunidades que atravessaram rupturas históricas violentas — deportações, escravidão, ditaduras. O trauma não desaparece com as gerações: transmite-se por gestos, por silêncios, por formas de reagir ao perigo que já não existe na mesma forma. Falar em identidade nacional no Brasil exige, por conseguinte, uma arqueologia do sofrimento antes de qualquer celebração.

Eis por que certas narrativas oficiais sobre o Brasil — aquelas que enfatizam a cordialidade, a mestiçagem como harmonia, a democracia racial — produzem um efeito tão peculiar em quem as ouve de dentro. Não é apenas que sejam falsas, ainda que muitas vezes o sejam. É que funcionam como uma camada depositada sobre algo que o corpo ainda guarda. Em outras palavras, a narrativa oficial não apaga a memória — ela a encobre, de modo que o esquecimento se torna um esforço constante, não uma condição natural.

Ademais, esse encobrimento não é neutro. Ele favorece determinadas versões do passado e silencia outras. A esse respeito, basta lembrar que os arquivos públicos brasileiros ainda guardam lacunas deliberadas — documentos destruídos, registros negados, histórias que nunca foram escritas porque nunca foram consideradas dignas de escrita. Em última análise, o que se herda sem saber é também o que foi deliberadamente ocultado.

Todavia, haveria ingenuidade em supor que a recuperação da memória resolve o problema da identidade. Saber de onde se vem não determina para onde se vai — razão pela qual a memória, por si só, não basta. O que se pode concluir é que pertencer é menos uma questão de origem do que de escolha contínua: a escolha, renovada a cada dia, de reconhecer no outro algo de si.

adição
contraste
reformulação
exemplificação
causa e consequência
Exercícios
1
Compreensão e análise do texto
Responda em português, com atenção à precisão e à sofisticação da linguagem.
1. O que o autor quer dizer com "uma herança que não vem em testamento"?
O autor refere-se a elementos da identidade cultural — como a língua materna, o sotaque e o ritmo do tempo — que são absorvidos de forma inconsciente, antes de qualquer escolha ou tomada de consciência. Por não serem transmitidos de forma explícita (como um bem material legado em testamento), essa herança é anterior à identidade: é substrato, não escolha.
2. Por que, segundo o autor, chamar essa herança de "identidade" seria simplificar demais?
Porque a identidade pressupõe escolha, afirmação e narração de si — processos ativos e conscientes. O que o autor descreve é anterior a tudo isso: um substrato sobre o qual a identidade se constrói, mas que permanece reconhecível mesmo diante das reformulações impostas pela vida. Confundir os dois seria apagar a distinção entre o que se recebe e o que se constrói.
3. Como o autor descreve o mecanismo pelo qual o trauma histórico se transmite entre gerações?
O trauma não desaparece com as gerações: transmite-se por gestos, por silêncios e por formas de reagir a perigos que já não existem na mesma forma. Trata-se de uma transmissão implícita e não verbal, que persiste mesmo quando as circunstâncias históricas originais já se transformaram.
4. Qual é o efeito que as narrativas oficiais sobre o Brasil produzem, segundo o texto?
O autor descreve um efeito de estranhamento em quem as ouve "de dentro": narrativas como a da cordialidade e da democracia racial funcionam como uma camada depositada sobre memórias que o corpo ainda guarda. Elas não apagam a memória — encobrem-na —, tornando o esquecimento um esforço constante, não uma condição natural.
5. O que o autor entende por "arqueologia do sofrimento"? Por que ela seria necessária antes de qualquer celebração da identidade nacional?
"Arqueologia do sofrimento" é uma metáfora para o processo de escavação das camadas de trauma histórico — escravidão, ditaduras, destruição de arquivos — enterradas na base da formação nacional. Ela seria necessária porque celebrar a identidade sem reconhecer esse substrato significaria perpetuar a lógica do encobrimento criticada no texto: o que se herda sem saber inclui justamente o que foi deliberadamente ocultado.
6. Como o autor resolve, no último parágrafo, a tensão entre memória e identidade?
O autor reconhece os limites da memória: saber de onde se vem não determina para onde se vai. A resolução proposta é relacional — pertencer é uma escolha contínua, renovada a cada dia, de reconhecer no outro algo de si. A tensão não é resolvida pela memória, mas pela ética do reconhecimento.
2
Reescreva com outro marcador
Reescreva cada frase substituindo o marcador destacado por outro que expresse a mesma relação lógica. Você pode usar qualquer marcador que conheça — inclusive os desta unidade.
1.
A situação é grave. No entanto, não há perspectiva de melhora.
Marcador substituído: no entanto → contraste/concessão
Opções válidas:
A situação é grave. Todavia, não há perspectiva de melhora. (mais formal, literário)
A situação é grave. Não obstante, não há perspectiva de melhora. (muito formal, jurídico-acadêmico)
A situação é grave; contudo, não há perspectiva de melhora. (formal, com ponto-e-vírgula reforçando a pausa)
2.
Ela não desistiu, ainda que as condições fossem adversas.
Marcador substituído: ainda que → concessão
Opções válidas:
Ela não desistiu, embora as condições fossem adversas. (mais neutro, muito usado no registro culto)
Ela não desistiu, mesmo que as condições fossem adversas. (ligeiramente menos formal, mais coloquial)
Ela não desistiu, a despeito de as condições serem adversas. (registro elevado; note a mudança para o infinitivo)
3.
A narrativa oficial não apaga a memória. Eis por que o esquecimento exige esforço.
Marcador substituído: eis por que → causa/consequência
Opções válidas:
A narrativa oficial não apaga a memória. Por conseguinte, o esquecimento exige esforço. (consequência direta, registro formal)
A narrativa oficial não apaga a memória, razão pela qual o esquecimento exige esforço. (integra as orações em período único)
A narrativa oficial não apaga a memória — daí o esquecimento exigir esforço constante. (mais conciso; note o infinitivo após daí)
4.
Esse encobrimento não é neutro. Ademais, ele favorece determinadas versões do passado.
Marcador substituído: ademais → adição/progressão
Opções válidas:
Esse encobrimento não é neutro. Acrescente-se que ele favorece determinadas versões do passado. (registro formal, estrutura verbal)
Esse encobrimento não é neutro; mais do que isso, ele favorece determinadas versões do passado. (énfase progressiva)
Esse encobrimento não é neutro. Não apenas isso: ele favorece determinadas versões do passado. (efeito dramático, bom para ensaio literário)
3
Produção escrita — ensaio
Escolha um tema relacionado à memória, à identidade ou ao pertencimento — no Brasil ou em sua própria experiência de aprendizado de português e contato com a cultura brasileira.

Escreva um ensaio com 25 a 30 linhas. Você pode explorar, por exemplo:

a ideia de "saudade" como experiência cultural e linguística viagens, migração e a percepção de casa aprender português e perceber mudanças na própria identidade a relação entre memória e língua situações de pertencimento — ou deslocamento — em contextos estrangeiros
Seu texto deve:
  • mobilizar pelo menos três categorias distintas de marcadores discursivos
  • usar pelo menos cinco marcadores diferentes, variando tipo e função — priorizando os marcadores avançados trabalhados nesta unidade
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