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Rock Brasileiro Legião Urbana 1986

Tempo Perdido

Legião Urbana · do álbum Dois, 1986

Nenhuma música da Legião Urbana parece ter tocado mais no Brasil do que esta. "Tempo Perdido" virou hino de formatura, de show e de geração — a frase final da letra deu nome ao filme sobre a juventude de Renato Russo, lançado em 2013. Nesta versão B2, a canção é a porta de entrada para uma estrutura que o português usa o tempo todo para contar o que aconteceu sem apontar o dedo: a voz passiva.

Tempo Perdido

Ouça a música inteira pelo menos uma vez antes de continuar.

Palavras e expressões da música

PortuguêsMeaning
o suorsweat — in the song, physical effort and work, treated as something sacred
sagradosacred — worthy of respect, not to be touched
amargobitter — used of taste, but also of resentment and hard feelings
selvagemwild, untamed — here it is praise, not criticism
a tempestadethe storm
o escurothe dark, darkness
esconder / esconder-seto hide (something) / to hide oneself
prometerto promise
perder / perdidoto lose / lost — tempo perdido is time that was wasted
distantedistant, far away — in space or in feeling
🎼 Uma canção montada aos pedaços
"Tempo Perdido" não nasceu pronta. Renato Russo vinha reaproveitando versos de composições antigas, algumas do tempo do Aborto Elétrico, a banda punk que ele integrou em Brasília antes da Legião Urbana. Por volta de 1984 a letra já estava quase completa, mas ele não gostava do resultado e chegou a procurar ajuda para reescrever os versos. A versão definitiva só apareceu em 1986, no álbum Dois, lançada pela EMI-Odeon.
🏛️ O som de Brasília nos anos 80
A Legião Urbana surgiu no começo dos anos 1980, na mesma cena de garagem de Brasília que gerou outras bandas da época. Era um país cansado de vinte anos de ditadura, e uma geração inteira de adolescentes de classe média se reconhecia nas letras sobre pressa, desilusão e recomeço. Quarenta anos depois, "Tempo Perdido" continua sendo cantada em coro por plateias que não eram nem nascidas quando o disco saiu.

Voz passiva — contar o que aconteceu sem dizer quem foi

Na última estrofe da letra, a pessoa que canta usa esse recurso: algo que foi escondido — logo, alguém escondeu — e algo que se escondeu por conta própria. Em seguida, ela afirma que algo foi prometido, mas acrescenta que ninguém prometeu. A construção garante que existe um responsável; o verso seguinte nega isso. A contradição é deliberada, e só existe porque o português marca essa diferença.

Na voz passiva, o objeto da frase ativa torna-se o sujeito, e o particípio concorda em gênero e número com esse novo sujeito.

Voz ativaVoz passiva
Alguém escondeu a verdade.A verdade foi escondida.
A banda gravou o disco em três semanas.O disco foi gravado em três semanas.
A rádio tocava as canções todo dia.As canções eram tocadas todo dia.
A gravadora vai relançar o álbum.O álbum vai ser relançado.

O agente é opcional — e é justamente por isso que a passiva existe. Quando não interessa, ou não se sabe quem é o responsável, ele desaparece: "A decisão foi tomada em janeiro." Quando interessa, usa-se "por": A canção foi escrita por Renato Russo.

Duas maneiras de relatar o mesmo acontecimento

ConstruçãoRegistro
A porta foi aberta às sete.passiva — comum no jornalismo, em documentos e na escrita mais geral
Abriram a porta às sete.verbo na 3ª pessoa do plural, sem sujeito — muito mais comum na fala

Nos dois casos, alguém abre a porta; nos dois casos, a frase não diz quem. A escolha é de registro, não de sentido.

Cuidado com ser e estar

FraseSentido
A loja foi fechada às oito.ação: alguém fechou naquele momento
A loja estava fechada quando cheguei.estado: o resultado, e não interessa quem fechou

O inglês usa "was" nos dois casos — o português obriga você a escolher.

Regra prática

O particípio nunca muda de tempo — quem carrega o tempo é o verbo ser (é gravado, foi gravado, era gravado, será gravado), e o particípio concorda com o sujeito. Na conversa do dia a dia, o brasileiro costuma preferir a terceira pessoa do plural: em vez de meu celular foi roubado, ele diz roubaram meu celular.

Pronúncia

Os particípios em -ido concentram dois traços do português brasileiro ao mesmo tempo: di e ti antes de i soam como dj e tch em vários estados brasileiros, e o -o final átono soa como u.

Repita em voz alta acompanhando a canção: perdido, escondido, prometido, partido, todos os dias, distante.

Exercício 1

Verdadeiro ou Falso?

Com base no que você ouviu e leu acima, marque V ou F.

Renato Russo compôs "Tempo Perdido" em poucos dias, pouco antes da gravação do álbum.
A canção aproveita versos de composições anteriores, do tempo do Aborto Elétrico.
Nenhuma outra música da Legião Urbana parece ter tocado tanto no Brasil quanto esta.
O último verso da canção deu nome a um filme sobre Renato Russo.
Na última estrofe, a pessoa que canta conclui que o tempo vivido foi tempo desperdiçado.
A pessoa que canta se dirige a alguém, com pedidos diretos.

Exercício 2

Voz passiva no passado

Complete as frases com a voz passiva do verbo indicado. Atenção à concordância do particípio.

1.O álbum Dois(lançar) em junho de 1986.
2.A canção(escrever) por Renato Russo.
3.As primeiras composições da banda(compor) ainda no tempo do Aborto Elétrico.
4."Tempo Perdido"(escolher) como single do disco.
5.Os versos antigos(aproveitar) na versão definitiva.
6.A Legião Urbana(formar) em Brasília, no início dos anos 80.

Exercício 3

Ação ou estado?

Complete com ser ou estar no tempo adequado, mais o particípio do verbo indicado.

Ex. A cartafoi escrita(escrever) pelo gerente às oito em ponto.
1.A loja(fechar) pelo gerente às oito em ponto, como todo dia.
2.Quando cheguei, a loja já(fechar) e não pude voltar no dia seguinte.
3.O álbum(gravar) em três semanas, num estúdio no Rio de Janeiro.
4.O museu ficou anos sem visitantes; as salas(fechar) desde 2019.
5.Três faixas inéditas(incluir) na edição comemorativa do disco.
6.Quando o público entrou, o palco já(montar).

Exercício 4

Compreensão auditiva

Ouça a música de novo e responda com suas próprias palavras — não copie nenhuma linha da letra, descreva o que você entende.

1. Na última estrofe, a pessoa canta que "o que foi escondido é o que se escondeu". Por que você acha que essa diferença importa para ela?

A diferença marca se existe ou não um responsável pelo que aconteceu: algo que foi escondido supõe que alguém escondeu; algo que se escondeu aconteceu por conta própria. A pessoa parece querer separar o que aconteceu sozinho do que teve, de fato, um culpado.

2. Logo depois, ela afirma que algo foi prometido, mas que ninguém prometeu. Como você entende essa contradição?

A voz passiva ("foi prometido") garante que existe um responsável; o verso seguinte nega isso ("ninguém prometeu"). A contradição é deliberada — sugere expectativas que ninguém chegou a assumir de fato, mas que ainda pesam como se tivessem sido assumidas.

3. A canção termina dizendo que nada daquilo foi tempo perdido. Depois de ouvir a música inteira, esse final soa triste ou esperançoso para você?

Resposta pessoal — as duas leituras são possíveis, desde que justificadas. Algumas pessoas ouvem uma aceitação serena do passado; outras, uma tentativa de se convencer de que nada foi em vão.

Exercício 5

Sua vez

Escreva de cinco a sete frases contando algo que mudou na sua cidade nos últimos anos — um prédio, uma praça, um festival, uma lei. Use a voz passiva em pelo menos quatro frases e, em cada uma delas, não nomeie o responsável.

Modelo

Nos últimos anos, o centro da minha cidade mudou bastante. Uma praça antiga foi reformada e ganhou bancos novos e mais árvores. Uma ciclovia foi construída na avenida principal, e agora muita gente vai de bicicleta para o trabalho. O antigo cinema foi fechado há dois anos, mas o prédio ainda não foi ocupado por nada. Um festival de música ao ar livre foi criado no verão passado e já virou tradição. Algumas coisas foram perdidas nesse processo — mas, no geral, acho que o bairro ficou melhor.

Você pode incluir no seu texto:

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