O Quilombo que Resiste Quilombo Sacopã — Lagoa, Rio de Janeiro
Reportagem real da BBC News Brasil sobre a comunidade quilombola Sacopã — resistência, ancestralidade, o direito à terra (posse × propriedade) e samba em uma das áreas mais valorizadas do Rio. Perífrases verbais de aspecto (estar/ir/ficar/passar + gerúndio) e subjuntivo em julgamento e estimativa.
quilombos e cultura afro-brasileiraposse × propriedade (Art. 68 do ADCT)perífrases verbais: estar/ir/ficar/passar + gerúndiosubjuntivo em julgamento/estimativa
Antes de fazer os exercícios, assista ao vídeo da reportagem na página original da BBC News Brasil (a matéria inclui fotos e vídeo da comunidade).
BBC News Brasil · Série "Hidden Rio — Rio Escondido"
Texto
A reportagem
Leia o texto com atenção. Ele é a transcrição/adaptação direta da reportagem da BBC News Brasil.
Manter um quilombo em um dos pedaços mais valorizados do Brasil. Essa foi a conquista da comunidade quilombola Sacopã, que reúne 28 pessoas em plena Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
A posse da terra, obtida recentemente, era uma das reivindicações dos residentes com base na Constituição de 1988, que garante aos descendentes de escravos a posse da terra para onde fugiram da escravidão.
"Fomos resistindo, ficamos. Nós ganhamos a posse da terra e foi uma luta insana. Mas conseguimos vencer a especulação imobiliária."— Luiz Sacopã, líder da comunidade
O Brasil foi o principal destino para os escravos nas Américas. Estima-se que tenha recebido 5 milhões de pessoas vindas da África.
"Estamos na sexta geração. Nós somos da Nigéria. Fiz um exame há pouco tempo de DNA e deu 98,5% africano. Somos negros, no meio de brancos."— Luiz Sacopã
O músico diz que não podia deixar de fazer música com a situação de opressão a que os cidadãos de mesma raça e classe são submetidos no Brasil.
"Tinha de fazer música e cair em cima dos racistas, em cima da elite. Música de protesto falando em respeito de quilombo, falando em respeito de negro."— Luiz Sacopã
No Carnaval, Sacopã comanda um bloco para 70 mil pessoas. O músico considera irônico que a maior parte dos seus fãs sejam parte "dessa mesma elite branca".
"São eles mesmo se divertindo lá, cantando, me abraçando, me cumprimentando… Isso para mim foi genial. Eu metendo pau neles, e eles lá rebolando e dizendo: 'ah, Sacopã, valeu…'"— Luiz Sacopã
Fonte: BBC News Brasil, "O quilombo que resiste em uma das áreas mais valorizadas do Rio", 5 ago. 2016 — série "Hidden Rio". Vídeo, reportagem e edição: Gibby Zobel.
Nota cultural: quilombos como o Sacopã carregam, além da luta pela terra, uma forte dimensão cultural: o samba e o carnaval funcionam como formas de resistência e afirmação identitária, e muitas comunidades quilombolas também mantêm vínculos com religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, praticadas como parte da preservação da ancestralidade. Essa combinação — terra, música e religiosidade — é típica de comunidades quilombolas urbanas no Brasil.
Direito e cultura
Direito à terra: posse × propriedade
Um conceito jurídico que o texto usa sem explicar — e que muda o sentido da luta do Sacopã.
No direito brasileiro, posse e propriedade não são a mesma coisa. A posse é o exercício de fato do uso, do cuidado e da ocupação de uma terra ou bem — quem tem posse mora, planta, cuida, mesmo sem um título formal registrado em cartório. Já a propriedade é o direito reconhecido e registrado no papel: existe um título que garante ao dono o controle pleno do bem diante de qualquer disputa.
Posse
Uso e ocupação de fato, reconhecidos, mas sem título formal registrado.
Propriedade
Direito registrado e titulado — o dono tem um documento que comprova.
Essa diferença é central para entender a luta do Sacopã. O Artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), parte da Constituição de 1988, determina que os remanescentes de quilombos que ocupam suas terras têm direito à propriedade definitiva, e que o Estado deve emitir os títulos correspondentes. Na prática, porém, o caminho da posse até a propriedade titulada passa por um processo longo, conduzido pelo INCRA: identificação da área, delimitação do território, contestação de terrenos privados dentro dele e, só depois de tudo isso, a emissão do título.
Por causa dessa lentidão, muitas comunidades quilombolas vivem por décadas apenas com a posse reconhecida, sem o título de propriedade que a Constituição promete desde 1988. Era exatamente essa a situação do Sacopã quando a reportagem foi publicada, em 2016: a comunidade tinha conseguido o reconhecimento da posse da terra, mas ainda aguardava o título definitivo. É por isso que o texto fala em "a posse da terra, obtida recentemente" — um avanço real, mas que ainda não era, naquele momento, a propriedade plena.
Atualização — novembro de 2024
Oito anos depois da reportagem, o Sacopã recebeu do INCRA o título definitivo de suas terras, tornando-se o primeiro quilombo oficialmente titulado na Zona Sul do Rio de Janeiro — um processo que levou quase vinte anos desde a certificação da comunidade pela Fundação Cultural Palmares, em 2004.
Mesmo assim, o território não virou propriedade privada da família: como em todo território quilombola titulado, a terra pertence à União, e a comunidade recebe apenas o direito de uso e usufruto coletivo — inalienável, ou seja, que não pode ser vendido, dividido ou hipotecado. Como resume Luiz Sacopã: "A certidão não diz que isso é teu, mas garante juridicamente."
Exercício 1
Vocabulário essencial
Relacione cada palavra ou expressão ao seu significado, com base no texto.
quilombo / quilombola
especulação imobiliária
reivindicação
posse da terra
ancestralidade
Exercício 2
Posse ou propriedade?
Leia cada situação e decida: ela descreve posse ou propriedade?
1. Uma família mora e cultiva um terreno há 40 anos, mas nunca teve escritura registrada em cartório.
2. Um casal compra um apartamento, registra a escritura em cartório e recebe o título de dono.
3. Em 2016, o Sacopã tinha o direito reconhecido de permanecer na terra, mas ainda esperava o título definitivo do INCRA.
4. Uma empresa tem, em seu nome, o registro legal de um terreno na Zona Sul do Rio, com escritura pública.
5. O que o Artigo 68 do ADCT promete aos remanescentes de quilombos que ocupam suas terras.
Exercício 3
Verdadeiro ou falso
Com base no texto, marque V (verdadeiro) ou F (falso).
1. O Quilombo Sacopã fica na Zona Sul do Rio, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas.
2. A comunidade conseguiu a posse legal da terra há muitas décadas, sem dificuldades.
3. Luiz Sacopã afirma ter ascendência nigeriana, confirmada por teste de DNA.
4. O bloco de carnaval de Sacopã é pequeno e reúne apenas os moradores do quilombo.
5. Sacopã acha irônico que boa parte do público do seu bloco seja da mesma elite branca que ele critica em suas músicas.
Exercício 4
Gramática: perífrases verbais de aspecto
O texto usa mais de uma construção com gerúndio, e cada uma marca uma nuance diferente de tempo ou intensidade. Leia as explicações e depois escolha, para cada frase nova, qual perífrase cabe melhor.
estar + gerúndio
Ação em andamento no exato momento em que se fala. Ex.: A comunidade está lutando pela titulação até hoje.
ir + gerúndio
Processo gradual, que se acumula e evolui pouco a pouco, passo a passo. Ex. do texto: "Fomos resistindo, ficamos."
ficar + gerúndio
Permanência prolongada numa ação ou estado, muitas vezes com nuance de insistência ou desgaste. Ex.: A comunidade ficou esperando a titulação por décadas.
passar + gerúndio
Ocupar um período de tempo inteiro fazendo algo. Ex. do texto: "Os foliões passam a tarde cantando, dançando e se divertindo."
1. Depois da posse, a comunidade ___ se organizando pouco a pouco para buscar o título de propriedade.
2. O laboratório ___ a tarde inteira analisando o material genético do exame de DNA.
3. Mesmo sem resposta do INCRA, Sacopã ___ repetindo o mesmo pedido a cada reunião, ano após ano.
4. Neste exato momento, várias famílias quilombolas pelo Brasil ___ aguardando a titulação de suas terras.
5. Ao longo de gerações, a comunidade ___ mantendo viva a memória dos antepassados.
Exercício 5
Gramática: transforme com a perífrase indicada
Reescreva cada frase usando a perífrase indicada entre colchetes, fazendo as mudanças de verbo necessárias.
Exercício 6
Gramática: subjuntivo em julgamento e estimativa
Repare a diferença: quando afirmamos um fato certo, usamos o indicativo. Quando fazemos uma estimativa, um julgamento de valor ou expressamos uma reação subjetiva, usamos o subjuntivo.
Indicativo (fato): "É verdade que o Brasil recebeu milhões de africanos escravizados." Subjuntivo (estimativa): "Estima-se que o Brasil tenha recebido cerca de 5 milhões" — o número é uma aproximação, não um dado exato e comprovado.
Complete as frases abaixo conjugando o verbo entre parênteses no subjuntivo.
Exercício 7
Discussão e produção pessoal
Responda com suas próprias palavras, em português.
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