A velha mulher chegou comunidade depois de quarenta anos. Não se lembrava cheiro da terra, mas a terra se lembrava dela. Havia desistido explicar por que tinha ido embora. Alguns abandonos não precisam palavras — apenas de silêncio e de tempo.
Sua mãe costumava assistir rodas de capoeira da praça todas as sextas-feiras, sempre de longe, sempre de pé. Nunca obedecia ordens dos homens que mandavam as mulheres ficar em casa. Dizia que aspirava uma liberdade que ainda não tinha nome. Evocava sua própria mãe — a que havia sido escravizada — sem jamais pronunciar a palavra escravidão. Havia coisas que a boca não formava, mas o corpo carregava.
A velha mulher insistia não chorar. Pensava filhas que havia deixado naquela casa de barro, nas vozes que ainda ouvia quando a noite pesava demais. Havia namorado um homem bom naquela rua. Havia enterrado dois filhos naquela terra. Esperou a vida inteira por uma paz que nunca teve pressa de chegar.
Referiu-se sua história apenas uma vez, para a neta que insistia em saber. — Dependemos memória dos que vieram antes — disse, com a voz de quem não pede permissão para existir. — Não se esqueça onde você veio.
O sol da tarde entrou de lado. Por um instante, ela se esqueceu tudo que havia perdido — e se lembrou apenas o que havia sobrevivido.
