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Um Apólogo Machado de Assis

1885 · Domínio público · Literatura brasileira
Uma fábula curtíssima sobre orgulho e reconhecimento desigual — a discussão entre uma agulha e um novelo de linha sobre quem realmente merece o crédito pelo trabalho.
📖 Conto · Domínio público Literatura do século XIX Diálogo e ironia
Sobre o texto
Nível: este texto usa vocabulário e sintaxe do século XIX (ex.: "arregaçava", ordem invertida das frases) — recomendado para alunos de nível B2 ou superior.

Machado de Assis (1839–1908) é considerado o maior escritor brasileiro. "Um Apólogo" é uma fábula curtíssima — uma conversa entre uma agulha e um novelo de linha, cada um reivindicando o mérito pelo trabalho de uma costureira — terminando numa moral irônica sobre orgulho e reconhecimento desigual.

Texto âncora · Machado de Assis
Um Apólogo
Machado de Assis · 1885 · Domínio público · Leia com atenção antes de responder às perguntas

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

— Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

— Deixe-me, senhora.

— Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

— Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

— Mas você é orgulhosa.

— Decerto que sou.

— Mas por quê?

— É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

— Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

— Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

— Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...

— Também os batedores vão adiante do imperador.

— Você é imperador?

— Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...

Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana — para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:

— Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima.

A linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile.

Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E quando compunha o vestido da bela dama, e puxava a um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:

— Ora agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

— Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

— Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Fonte: Machado de Assis, "Um Apólogo", Contos Consagrados, Coleção Prestígio, Ediouro (domínio público).

Vocabulário
agulhainstrumento fino de metal usado para costurar
novelo de linhafio enrolado em forma de bola
costureiraprofissional que costura roupas
baronesatítulo de nobreza feminino; esposa (ou detentora) do título de barão
enroladacheia de si, convencida — jogo de palavras com "enrolar" (o fio)
orgulhosaque sente orgulho excessivo de si mesma
alfinetepequeno objeto pontiagudo usado para prender tecido
babadosenfeites franzidos numa roupa
teimarinsistir de forma obstinada
mofar (de alguém)zombar, debochar de alguém
balaio das mucamascesto das empregadas domésticas — expressão que reflete a sociedade escravocrata do Brasil do século XIX
apólogopequena fábula alegórica que termina com uma moral
abanando a cabeçabalançando a cabeça, geralmente em sinal de dúvida ou negação

Perguntas para discussão
Discussão
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Qual é a moral (a lição) deste apólogo? Como você a explicaria com suas próprias palavras?
O que a agulha e a linha representam, na sua opinião? Você consegue pensar num exemplo da vida real parecido com essa discussão?
Por que você acha que Machado de Assis termina a história com o comentário do "professor de melancolia"?
Repare no uso do diálogo — como Machado de Assis constrói a personalidade de cada personagem (a agulha, a linha, o alfinete) só pela fala deles?
Você já discutiu com alguém sobre quem merecia mais crédito por um trabalho feito em conjunto? O que aconteceu?
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